Antes de ser diagnosticada com transtorno bipolar eu também não fazia muita ideia do que era ser bipolar. As pessoas chamam os indecisos de bipolar e, claro, muita gente imagina que está usando uma hiperbole, mas na verdade eu não acho que isso representa bem o transtorno.
1. Bipolar é um transtorno de humor e não de personalidade
O conceito de personalidade é meio controverso. Uma das ideias errôneas que se tem sobre o bipolar é de que ele é indeciso, mas eu acho que os casos em que as pessoas costumam acusar as outras de serem bipolar, se elevadas a um nível patológico, seriam mais próximos de um Borderline do que de um bipolar (e eu até entendo, afinal os dois transtornos são confundidos com frequência).
O bordeline vai ter essa flutuação de ideias de um lado para o seu oposto, tipo uma hora "eu amo você", outra hora "eu odeio você". Quando o bipolar tem um episódio, isso afeta o como ele se sente sobre algo, mas não a essência da relação que ele tem com esse algo. Por exemplo: eu gosto de alguém e meus sentimentos não são retribuídos. Se eu sou bipolar e estou numa fase depressiva, eu vou lidar com aquilo de forma negativa, eu vou me odiar por gostar daquela pessoa, vou me arrepender de ter feito as escolhas que me levaram a conhecer aquela pessoa, vou me culpar, mas vou continuar gostando daquela pessoa. Se eu estiver na fase de mania eu vou ver aquilo de uma forma positiva, "ah tudo bem se ele não gosta de mim, eu vou simplesmente apreciar a presença dele e admirar ele de longe". Apesar do meu humor mudar, isso não afeta a situação, é mais sobre como eu me sinto sobre a situação do que sobre o que acontece.
2. Pessoas com transtorno bipolar tem 5x mais chance de ter um ataque cardíaco
Muitas pessoas não conseguem imaginar como doenças mentais afetam a saúde física de uma pessoa. O transtorno bipolar vai afetar a pessoa de muitas formas, mas um exemplo que ilustra isso de forma clara é o aumento do risco de ataque cardíaco. As pessoas que convivem com alguém bipolar percebem que elas são "sensíveis". Mas isso não é simplesmente porque elas são dramáticas ou se deixam afetar, a doença lhe deixa mais suscetível ao estresse isso pode ser grave o suficiente para lhe matar. Caso você queira uma explicação científica, eu sugiro que você vá pesquisar mais sobre, mas basicamente o transtorno eleva o nível de cortisol, que é um hormônio que regula várias coisas e contribue para a reação de "luta ou fuga" (quando você da de cara com perigo o seu corpo, quando saudável, vai lhe preparar para duas opções, lutar ou fugir, resumindo, esse hormônio aumenta o estresse). Então quando o bipolar tem um episódio longo, o cortisol vai estressar o coração de tal forma que o bipolar pode acabar desenvolvendo problemas cardíacos ou ter um ataque cardíaco.
Outros problemas físicos do bipolar incluem doenças gástricas, cutâneas, dores no corpo por causa da tensão muscular etc...
3. O transtorno é altamente hereditário, mas precisa ser engatilhado
Apesar de uma pessoa que não tem parentes com transtorno bipolar também poder ter o transtorno, pessoas com parentes bipolares tem um risco muito maior de desenvolver a doença (70% para parentes de primeiro grau). Mas apesar de se saber que a genética influência nessa disfunção hormonal que acontece no bipolar, a ciência ainda não consegue explicar especificamente o que precisaria ser herdado para alguém desenvolver o transtorno e acredita-se que vários genes simultaneamente são responsáveis pelo problema. Pesquisas com gêmeos idênticos mostraram que um gêmeo pode desenvolver a doença enquanto o outro continua normal, por isso acredita-se que apesar de você já nascer com a predisposição genética, você precisa passar por uma situação que engatilhe o transtorno, "ative o gene" (vide epigenética).
Gatilhos nem sempre são eventos traumáticos, algumas substâncias podem engatilhar transtornos como por exemplo: maconha. Isso quer dizer que se você tem um parente bipolar, você tem uma chance muito maior do transtorno se manifestar caso você passe por um gatilho, mas também existe a chance de você viver a vida inteira sem engatilhar o problema apesar dos seus genes. E isso é importante porque, assim como quando alguém tem câncer na família você precisa fazer exames com mais frequência, se você sabe que tem um parente bipolar é importante evitar substâncias gatilhos e ficar atento a sintomas, não é porque o transtorno ainda não se manifestou que você está livre do risco.
4. Se sentir incrível nem sempre é positivo.
Quando você está em mania você se sente no topo do mundo. Você pode fazer qualquer coisa que quiser! E claro, a energia, criatividade e motivação extra certamente ajudam a você ser capaz de fazer algumas coisas que você não sabia que era capaz. O problema é que nem sempre querer é poder e a mania também vai diminuir o senso crítico que nos aponta quando uma idéia é uma má ideia. Por exemplo: eu estou interessada em mágica, e tenho um episódio maníaco, então eu decido que eu consigo fazer esse truque super difícil de passar por uma parede mesmo sem ter conhecimento algum sobre como o truque funciona. Mas meu cérebro me convence totalmente de que é possível, e eu tenho energia de sobra para tentar múltiplas vezes atravessar a bendita parede. Mas a realidade não é tão fácil, eu posso, com certa critividade, acabar descobrindo uma forma de atravessar a parede, mas as chances são de que eu vou insistir naquilo e perder muito tempo e recurso naquela ideia e acabar não conseguindo atravessar a parede, e é aí que o transtorno faz o seu humor despencar e de repente você entra em depressão porque se frustrou fazendo uma coisa que nunca iria dar certo.
Outra coisa que você faz em mania, é assumir responsabilidades com as quais você não pode arcar. Se as pessoas pedem favores você aceita fazer, você resolve trabalhar mais tempo do que de costume, e você até da conta por um tempo, mas quando o seu humor se altera você percebe que não consegue lidar com tudo aquilo e que agora você está numa posição difícil em que precisa desfazer suas loucuras.
5. Setenta a 90% dos pacientes abandonam o tratamento em algum momento
Pode ser difícil para quem vê por fora entender, mas existem algumas características no transtorno que acabam levando o bipolar a desistir do tratamento. A razão mais comum é provavelmente: porque está funcionando. Não é uma auto sabotagem intencional, mas quando o especialista diz que você tem um problema incurável, mas você passa um bom tempo estável, você meio que desacredita no que lhe foi dito. "Eu estou bem, por que eu preciso tomar remédios? Talvez eu tenha sido diagnosticada erroneamente." Estabilizadores de humor são medicamentos caros, eles podem ter muitos efeitos colaterais, como ganho extremo de peso, sonolência, tremedeira etc e a sociedade ainda tem esse stigma sobre dependência química, principalmente quando é para uma doença mental, então é muito fácil se convencer de que você vai ficar bem sem os medicamentos.
Isso pode causar muita frustração para quem acompanha o bipolar na sua descoberta do problema e tratamento, "foi trabalhoso lhe acompanhar até aqui, por que você está jogando tudo isso fora?" Mas esse discernimento afetado faz parte do transtorno. As vezes o bipolar não tem noção de quão mal ele está por causa desse discernimento prejudicado, e por isso é importante que as pessoas em volta dele entendam a doença de forma que elas possam ser essa voz da consciência nesses momentos, ou o bipolar vai continuar fazendo o que ele está fazendo até dar ruim.
6. Ele piora quando não é tratado
Como esse stigma com doenças mentais faz as pessoas acreditarem que precisam suportar aquele sofrimento, algumas pessoas criam mecanismos não tão saudáveis e aceitam aquilo se convencendo de que pior do que está não fica. Fica. O transtorno pode degenerar os neurônios, levando a piora no quadro e até demência. Como o tratamento é caro e conseguir o auxílio doença pode ser burocrático, tem gente que vai pensar que não vale a pena lutar pelo tratamento. Não se iluda, isso é algo que precisa ser feito.
7. Eles não estão evitando fazer algo por frescura
Porque substâncias como álcool e maconha podem engatilhar o problema, é importante para o bipolar se manter longe dessas substâncias. Você pode pensar "ah mas uma vezinha não mata", mas gatilhos não são como embriaguez, o problema não vai desaparecer quando o álcool for digerido, não da para prevê a proporção do estrago que essas substâncias podem causar.
Também é importante para o bipolar ter uma rotina de sono muito rigorosa, e isso é importante por dois motivos:
- 1. Para identificar prodomos (se seu sono aumenta você percebe que pode estar entrando em um episódio depressivo, e se diminui, em um de mania).
- 2. Alterações na rotina de sono são uma espécie de gatilho geral que serve para a maioria dos bipolares. .
Fazer um bipolar ficar acordado até mais tarde para finalizar um projeto ou simplesmente para uma noitada com os amigos, não tem muitas chances de acabar bem, e novamente, não é algo que vai passar quando a pessoa puder dormir novamente.
8. Sobrecarga Sensorial
Fica muito claro para quem convive com o bipolar que ele é sensível. Mas muitas pessoas desconhecem o grau de hipersensibilidade que um bipolar pode ter. Coisas como sons e luzes em um nível aparentemente normal para uma pessoa não bipolar, podem ser extremamente incômodos para alguém com o transtorno. É similar a hipersensibilidade que os autistas tem, e assim como no autismo, alguns podem ter mais e outros menos.
9. Problemas Cognitivos
O transtorno bipolar não afeta o aprendizado, mas os episódios podem afetar algumas habilidades cognitivas. No episódio depressivo a memória é a mais afetada, é comum que o bipolar tenha lapsos, esqueça compromissos, e tenha a chamada "brain fog". Na mania é comum ter a fala afetada de forma similar a dislexia.
Isso é algo gerenciavel, mas algumas pessoas duvidam quando a gente passa por isso porque fora de um episódio nós não costumamos ter esses problemas, então pensam que estamos fingindo (ou drogados).
10. 95% dos pacientes com transtorno bipolar tem pelo menos mais uma doença
As mais comuns são abuso de substâncias, ansiedade, déficit de atenção, transtornos de personalidade como o borderline e distúrbios alimentares. Entre os problemas físicos, os mais comumente encontrados nos pacientes com transtorno bipolar são enxaquecas, problemas cardíacos, diabetes tipo 2, asma e artrite.
Oiee! Tudo bem?
ResponderExcluirMenina eu AMEI seu post. De verdade, aprendi muito com ele. Saúde mental é um assunto que me interessa bastante. Eu sou autista nível 1 com AH/SD - e entendo bem sobre a parte da hipersensibilidade sensorial e a empatia que precisamos ter com pessoas com algum transtorno.
Como a condição é "invisível" aos olhos alheios (e eu digo invisível entre aspas, porque muitas características e dificuldades na real são bem visíveis e acho esse critério de invisível bem problemático, mas entendo que é com base apenas em condições dos membros e locomoção).
Tenho uma amiga que é border e a gente troca muitas informações e tenta acolher uma a outra sempre que pode. Nunca saberemos o que o outro sente de verdade, por vivermos realidades diferentes, mas acredito muito que o interesse em aprender, acolher (sem julgar) e ter uma escuta ativa, já ajuda em 1000%.
Gostei muito do seu blog e obrigada pela visitinha no meu
xoxo<3